Entre Olhares: E agora, é bom já ir…

Quero iniciar a nossa conversa fazendo um pedido de desculpas. Precisei de todo este interregno para pensar, me restabelecer e voltar a produzir as nossas conversas semanais. No último artigo que escrevi descrevi-me como um abençoado e privilegiado. Entre Olhares tem provado isso em diversos momentos. Expresso aqui o meu olhar acerca da atual conjuntura e, por coincidência, não tem sido poucos os que concordam com as minhas análises. A tragédia anunciada, por incrível que pareça, se deu por realizada. E agora???????

Toda instituição cuja atuação interessa à “polis” (cidade) é política. Trata-se de mais do que representação, instituições; transcende os 3 Poderes, seus detentores, os palácios e as praças. Exige a participação de TODOS os cidadãos. Cabe a TODOS decidir sobre o exercício de Poder. Política é uma arte de gerir conflitos. É uma arena em que o êxito de um implica a insatisfação de muitos outros. E isso a faz eterna! Vivemos uma mudança de valores jamais vista. Cada um briga por eu quinhão. Urge diferenciar o falso do verdadeiro, pois domina quem tem o discurso, que não é necessariamente o melhor. Consumimos e somos dominados por discursos. É aí que reside a importância de dominarmos o saber e a informação (BARROS FILHO, Clóvis. Política: também sabemos fazer. Petrópolis – RJ: Vozes, 2018).

As reflexões do autor citado acima me foram úteis no processo de digestão do que aconteceu em nosso país no último mês de outubro. O olhar que tenho feito me leva a acreditar que tudo foi resultado da incompetência, da ignorância, da inércia, do egoísmo e da falta de humildade da nossa suposta esquerda. Jessé Sousa cunhou a “Elite do Atraso”. Quero eu aqui ter a audácia de descrever a “ESQUERDA ATRASADA”. Há muito tempo Cazuza já avisava que “o tempo não pára”. No entanto, a esquerda se deu ao luxo de parar no tempo, ficou atrasada. Não se modernizou.

Não obstante, a suposta esquerda passou a usar das práticas políticas já consagradas pela Direita. Cooptou. Comprou. Leiloou. Se vendeu. Nada mais direitista do que a tática de desqualificar o oponente. A suposta esquerda se esqueceu de observar que clichês, chavões e palavras de ordem foram estratégias razoavelmente eficazes e eficientes na Década de 80 do Século passado. Passou. “A maior arma que temos no mundo hoje é saber e ensinar a ler o mundo. Aprender e ensinar a pensar. Atuar politicamente é uma imposição. Urge pensar o Poder”(Barros Filho).

Todas as práticas elitistas listadas por mim anteriormente levaram a suposta esquerda a adotar um comportamento elitista. Afastou-se, desdenhou, menosprezou, desprezou, desvalorizou, isolou-se de suas bases. Resultado: Perdeu! Não só as eleições majoritárias. Perdeu sustentabilidade, credibilidade, aceitabilidade, poder de convencimento. Numa sociedade em que os dados e as informações não são diferenciados das FAKE NEWS, a superficialidade dos argumentos, a falta de densidade dos pensamentos reforçados pela incapacidade de fazer a sua verdadeira leitura, mostrou-nos aí os seus resultados.

Diz um aforismo que “Não há um mau que não traga um bem junto”. Assim sendo, vejo como positivo o fato de que com as eleições deste ano ficou provado que não existe a necessidade de um orçamento bilionário para vencer. Acredito eu que a campanha do vencedor foi a mais franciscana de todos os tempos. Entrincheirado dentro de sua casa, mostrou a influência e poder das Redes Sociais; do discurso que convence a maioria; da falta de necessidade das descabidas promessas messiânicas (embora o seu nome seja Messias).”Um dos modos de domínio do humano no mundo é por meio da força física, o controle dos territórios, a submissão dos corpos, a opressão, a escravidão, a tortura. Contudo, nada é mais poderoso do que o domínio do saber” (Barros Filho).

Democracia é isso: o Poder revesa de mãos em mãos. No caso brasileiro este revesamento é sempre de cúpula. As bases sempre ficam no escanteio, à margem, apenas observando e aplaudindo. Estamos agora assistindo ao mesmo espetáculo, com protagonistas diferentes, mas não novos. O ungido pela ampla maioria, democraticamente, está se cercando do alto escalão da ELITE DO ATRASO para compor sua equipe de governo. Medidas antipáticas poderão ser tomadas sem qualquer parcimônia, pois o eleito não usou da simpatia para chegar lá.

Faço votos que ao invés da suposta esquerda ficar batendo pezinho e fazendo beicinho, boicotando a provável possibilidade de sucesso do próximo governo, que ela entenda que “a formação dos cidadãos se dá na ação, na participação. A única saída para a democracia é criar instâncias efetivas de participação a partir de uma base de informação qualificada. Só assim emergirá uma nova cidadania; forte, ativa, com a transformação do eleitor em cidadão” (Barros Filho). Não esqueçamos nunca: O Poder se dá pelo controle do saber e da informação.

E agora, é bom já ir colocando na cabeça que “ 4 são os requisitos para avançar democraticamente: garantia aos direitos das liberdades individuais; justiça social (10% dos mais ricos detêm 55% da riqueza nacional); eficiência e gestão sustentável dos recursos públicos, econômicos e ambientais; boa governança (ética, transparência e participação popular)” (Barros Filho).

Desprezados que sejam os argumentos simplórios, frágeis, a desqualificação do opositor. A matemática que leva a afirmar que 89 milhões disseram não ao 17, é a mesma que leva a dizer que 100 milhões disseram não ao 13. Não felicitar o vencedor revela um mesmo comportamento fascistoide de não aceitar a livre concorrência e a vitória alheia. Dizer que “seremos a resistência” não elucidando ao que se refere remonta aos mesmos clichês de antigamente. Por tanto, agora, é bom já ir se reciclando, se atualizando, buscando o caminho de regresso às bases.

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