Profissão de mototaxista ganha espaço entre as mulheres no Iguatu

Em dois pontos da categoria na Avenida Agenor Araújo se dividem as personagens desta reportagem - (Foto: Thiedo Henrique/Mais FMI)

Trânsito difícil, sol e às vezes chuva. Engana-se quem acha que essas adversidades são enfrentadas apenas por homens. Mulheres que ainda sofrem preconceito somado a tudo isso carregam em suas motos, além dos passageiros, a coragem de vencer na vida se inserindo numa profissão dominada pela maioria masculina.

Em dois pontos da categoria na Avenida Agenor Araújo se dividem as personagens desta reportagem. A mais antiga na profissão entre as entrevistadas, Saneva Costa Paiva, 41, é mãe de dois filhos e avó de um neto de um ano e meio. “É daqui que sai o sustento de minha família. Trabalho há sete anos. Muitos pensam que estamos em cima de uma moto por charme, mas não têm noção do perigo que corremos em cima do veículo. Já fui assaltada enquanto trabalhava, levaram meu apurado, mas o bem (a moto) que ganho o meu dinheirinho deixaram”, contou.

Para conquistar os clientes, Saneva diz que a educação é o ‘segredo’. “Tenho aqueles que só fazem os serviços comigo. Porque têm confiança. Muitas pessoas reclamam da forma com que os colegas tratam os passageiros, andando veloz e conversando o que não deve. Posso dizer que ser moto-táxi me rendeu boas amizades”, disse. Saneva sonha em ter um ponto na cidade só com moto-táxi do gênero feminino. “É legal trabalhar com os rapazes, mas acho que seria bom ter um ponto só nosso. Acredito que incentivaria a adesão de mais mulheres”, disse.

Marleuda Alves de Souza, 43, encarou o desafio, após ser incentivada por sua colega de profissão. “Vim de São Paulo, estava parada, sem emprego, e a inspiração veio de minha amiga Saneva que me encorajou a entrar nesse ramo. Tinha temor no início, hoje encaro numa boa”, contou.

Sobre a resistência dos clientes, ela disse que recorda a estranheza de um popular em uma de suas abordagens. “Quando vejo uma pessoa que sinto que esteja procurando um serviço em nossa área, às vezes me deparo com a surpresa no olhar por existir uma mulher de colete de moto-táxi”, contou.

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O que faz Marleuda temer a profissão é o trânsito. “A estrada é muito complicada. Ninguém respeita. Os carros tiram ‘finos’ dando a entender que eles têm mais ‘poder’ de quem está numa moto. Este tipo de situação nos exige cuidados demais, tanto com nossa vida, com a do nosso cliente”, afirmou. Hoje ela diz gostar do que faz. “Eu amo, aprendi a gostar. No início tive vários medos, hoje não me vejo fazendo outra coisa”, disse.

Passageiros

Apesar de alguns casos de resistência popular em ver as mulheres na profissão, há quem prefira as mulheres na hora de seguir para o seu destino. O acadêmico de enfermagem Paulo Alcântara conta que já pegou moto-táxi várias vezes com mulheres e que a sensação de segurança é maior. “As mulheres sempre são mais cautelosas no trânsito. Elas não ‘furam’ sinal, não ultrapassam em velocidade, enfim, são mais cuidadosas no volante”, afirma.

Com olhos verdes e a pele clara escondida nas luvas que projetem do forte calor, Lúcia Silva Lima Vieira, 41, cadastrada na categoria há três anos, vive do levar e trazer as pessoas com o sorriso e simpatia no rosto. O contato diário com as pessoas não faz do marido uma pessoa enciumada. “Ele e meus três filhos apoiam tudo que faço. Nunca tive um conflito familiar devido ao meu trabalho”, contou.

Como moto-táxi afirma não ter passado por assédio, só quando estagiou em outra área onde também não é comum a presença feminina. “Quando trabalhei como frentista, passei por um leve constrangimento, mas tirei de letra”, lembrou.

Gostando do que faz no momento, Lúcia disse que além de cuidar dos três filhos, da casa e do marido, faz curso de cabeleireiro. “Ninguém sabe o dia de amanhã. Gosto de ser moto-táxi. Venho me capacitando e quero montar meu salão de beleza. Realizado esse sonho, vou com certeza dar um jeito de conciliar os dois”, ressaltou.

As três moto-taxistas são prova viva da luta de direitos, quebra de paradigmas e a certeza que o lugar da mulher é onde ela quiser. “O dia da mulher serve pra mostrar nossos direitos, que temos liberdade, podemos ser independentes. Longe de ser somente uma dona de casa”, pontuou Lúcia.

Números

Iguatu possui representação sindical da categoria na cidade. Mais de 650 profissionais já se cadastraram como moto-taxistas junto à prefeitura desde a regulamentação da profissão no município ocorrida no ano de 2010. Atualmente seis mulheres desempenham as funções na prestação de serviços no transporte de passageiros.

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