Com liderança difusa e convocados pelas redes sociais, milhares de manifestantes saíram ontem às ruas de todo o País em defesa do governo Jair Bolsonaro (PSL). Atos pró-governo tiveram pauta de ataques principalmente ao Congresso e Supremo Tribunal Federal (STF). Em Fortaleza, “alvo número um” dos protestos foi o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

“Alô, centrão, politicagem não tem vez com o capitão”, repetiam manifestantes, em referência ao bloco de partidos de centro – como DEM, PP e PR – que vem impondo derrotas ao Planalto no Legislativo. Ocorrendo das 14h às 18h na Praça Portugal, na Aldeota, o ato também foi marcado pela defesa da pauta dos ministros Sérgio Moro (Justiça) e Paulo Guedes (Economia).

“Pacote anticrime: ou você apoia ou pode se tornar a próxima vítima”, dizia um dos cartazes que foram distribuídos pela organização do evento. No meio da praça, apoiadores de Bolsonaro ainda instalaram painel com fotos de deputados que votaram pela saída do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) da pasta de Moro. “Traídores da pátria”, dizia faixa próxima à peça.

Atos pró-governo foram registrados em todos os 26 estados e no Distrito Federal. Apesar de visivelmente menores que manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff (PT) em 2016, mobilizações foram expressivas e surpreenderam até aliados do presidente. Expectativa era menor sobretudo por conta de “racha” da direita – como o MBL e parte da bancada do PSL – em torno do evento.

Inicialmente, o próprio Bolsonaro divulgou e apoiou os atos, o que teria contribuído para o aumento das mobilizações pelo País. O presidente, no entanto, acabou se afastando formalmente das manifestações – e até recomendando que ministros não fossem a elas – temendo que o gesto de adesão esfriasse ainda mais as relações com o Congresso Nacional.

No Ceará, o evento foi organizado – sobretudo com cartazes e um carro de som – pela Frente Cearense pelo Novo Brasil, formada pelos grupos Conexão Patriota, Endireita Fortaleza, Brasil Conservador, Brasil Indignado, Consciência Patriótica e Instituto Democracia e Ética. Apesar disso, movimento “paralelo” foi comandado por deputados do PSL mais cedo, saindo 14h do Parque Rio Branco, no São João do Tauape.

Na concentração da Praça Portugal, manifestantes ergueram um boneco inflável gigante do presidente e se dividiram entre discursos em defesa de pautas do governo – como o pacote anticrime e a reforma da Previdência – e jingles da campanha de Bolsonaro. Outro boneco do ministro Moro chegou a ser inflado, mas murchou após algumas horas e foi removido.

Líder de um dos grupos e um dos homens mais próximos do presidente no Ceará, o deputado federal Heitor Freire (PSL) minimizou a grande quantidade de ataques feitos ao Congresso no evento. “Bolsonaro tem sim um bom acesso ao parlamento, existe um exagero da mídia em dizer que ele não tem diálogo. Se você ver na votação do Coaf, foi praticamente empatado, 228 a 210, perdemos por pouco”, diz.

Apesar disso, o deputado destacou ser favorável que o presidente não transforme o governo em “balcão de negócios” para conquistar base parlamentar. “O Bolsonaro vem falando isso e nós apoiamos. Nada de transformar em balcão de negócios, de toma lá, dá cá”. Além dele, também participaram dos atos os deputados estaduais André Fernandes (PSL) e Delegado Cavalcante (PSL).

Apesar da análise de Freire, lideranças do centrão avaliaram que a hostilidade nas ruas acirra e isola ainda mais o governo no Congresso. Um dos principais nomes do bloco, o líder do DEM, deputado Elmar Nascimento (BA), divulgou nota na qual condena o “radicalismo e a beligerância” e afirma que “ninguém governa sozinho”.

Não houve estimativa oficial de participantes, mas organizadores falavam em até 26 mil pessoas. Vestidos de verde-amarelo ou camisetas pretas com o rosto do presidente, manifestantes tinham perfil diverso. Elias Soares, 48, chamou atenção ao discursar no carro de som com uma bandeira de arco-íris com as cores do movimento LGBT e o rosto de Bolsonaro, sendo muito aplaudido pelos outros manifestantes.

“A gente tem que quebrar essa falsa hegemonia de que só a esquerda representa o povo LGBT do Brasil”, disse Soares logo após o discurso, entre um abraço e outro do público. Questionado sobre polêmicas do segmento com o presidente, que já chegou a afirmar que preferiria que um filho “morresse em um acidente” do que aparecesse namorando com outro homem, Elias minimizou.

“Uma declaração ou uma opinião não é crime. Eu prefiro muitas vezes um presidente que diga o que ele pensa, a verdade, do que um que minta, finja”, diz. “Tenho orgulho de ter votado em alguém que não compactua com atos libidinosos (…) que quer o bem do País. E nesse aspecto nós, eu e o presidente, temos muito mais em comum do que de divergente”.

Fonte: O Povo