Tenho a impressão de que estou com sérios problemas neurológicos. Explico: Depois de longa abstenção televisiva, decidi, recentemente, assistir – tentar pelo menos – a um programa jornalístico. Tudo parecia normal, matérias maçantes, fofocas, futilidades, tragédias, desvios de verbas, o jeitinho brasileiro de fazer corrupção. De repente, tive uma crise – deve ter sido isso – e surge na tela uma nova mania entre os famosos (que nunca vi nem ouvi falar): Pé na pia – P maiúsculo de pezorro! Mais especificamente, fotos com o pé na pia. Isso mesmo! Uma emissora de TV reservou o horário nobre do meu, do seu, do nosso descanso de final de domingo para retratar, assustadora e bizarramente, que fotografar com o pé sobre a pia é ‘a nova onda do pedaço’… Eu tenho certeza que não estou normal, deve estar acontecendo algo muito grave comigo – o gerundismo foi proposital, para dar ênfase ao transe.

A repórter, tadinha, até tentou ser engraçada, colocou o pé em cima de algo branco – uma caixa de isopor, talvez, mas não convenceu. Para chancelar a entrevista, apareceu um especialista – já perceberam que para tudo no mundo sempre existe um especialista de plantão disposto a justificar o fenômeno social emergente (mesmo que injustificável à luz da racionalidade)? O expert, com um discurso que não convenceu ninguém (Será? Ou hoje, dias depois da entrevista, nossas redes sociais estarão cheias de pias, de pés, de pés em pias, de pias sem pés… Opa! Catacrese, não! Toda pia tem pé, seu lunático!), enumerou as razões que levam a acertos e erros nas redes… Deu vontade de dormir, mas resisti – ele se referia a outra rede.

O sucesso midiático e “internético” de mais um imbecilismo que viralizou, teve seu ponto alto, a culminância, na revelação do próprio autor da façanha, do homem que descobriu que pé em pia é legal! Ele declarou, in verbis: “Tirei a foto com o pé na pia porque no quarto não tinha luz, mas no banheiro, sim!” Ou seja, há uma luz no fim do túnel, para além do quarto, no banheiro. Quando há excessos, e vamos ao banheiro, o normal é darmos descarga e não luz! Nisso reside a genialidade, a percepção de que um pé na pia dá luz a milhares de visualizações que geram reportagens, que torna tudo interessante… Puxei a descarga, desculpe!

Nossa humanidade está doente! São muitos vazios preenchidos com absolutamente nada! Aliás, eu estou vazio e doente – deveria estar em casa agora, procurando alguma pia para lavar o pé. Não, lavar não. Tirar foto!

O que estão fazendo com a nossa a humanidade?

Por favor, acordem-me desse pesadelo!

Não saber inspira dúvidas. Quem duvida teme… E o medo é um dos impulsionadores do fracasso.

Nijair Araújo Pinto – Ten Cel BM
Cmt do 4º GB – Iguatu