Chegando o Natal e a ordem é “presentear”, “comprar”, “aproveitar as promoções”, “corra-corra” que é só até o dia “x”… versões do sistema capitalista, cujo mando é consumir (ter), estilo de vida orientado por uma crescente propensão ao consumo de bens ou serviços, em geral supérfluos, em razão do seu significado simbólico (prazer, sucesso, felicidade), frequentemente atribuído pelos meios de comunicação social.

A nossa época natalina bem se iguala a história dos americanos que por vezos ideológicos, fomentou essa ânsia de consumo, nisso, a Wall Street criou seus derivativos de vento para atender aos desideratos de uma sociedade doente que consumia tudo e qualquer coisa.

Durante quase uma década, as famílias americanas não pouparam um único centavo; torravam seus salários e ainda se endividavam. Esse consumismo doentio atendeu a dois propósitos básicos: garantiu uma sensação de bem-estar social e permitiu que a economia americana ficasse superaquecida durante anos. Mas, como tudo na vida, nada dura para sempre.

O ensinamento que fica desse consumismo doentio é simples: não temos que comprar porque é barato; apenas temos que comprar o que precisamos. Quando passamos a nos impor limites, passamos a valorizar o dinheiro e usá-lo para aquilo que realmente nos agrega valor.

Antes mesmo de mergulhar na questão é preciso que se acate a possibilidade de o consumismo virar doença, a oneomania, mais conhecida como consumo compulsivo – atinge entre 2% e 8% das pessoas no mundo, com muito ou pouco dinheiro, que escondem as sacolas e sofrem com as compras e, assim como fumar, beber ou jogar, consumir pode se tornar um vício e não ser uma escolha.

A doença atinge principalmente as mulheres: a proporção é de quatro mulheres para cada homem. O transtorno frequentemente leva ao superendividamento, vale destacar que nem todo superendividado sofre de consumo compulsivo.

“Não é uma questão de falta de planejamento financeiro e de acesso à informação. É uma doença, que atinge todas as classes sociais”, explica a psicóloga Tatiana Filomensky, coordenadora do tratamento para consumidores compulsivos do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso do Instituto de Psiquiatria. É uma doença, que atinge todas as classes socias”, explica a psicóloga coordenadora do tratamento para consumidores da USP e presidente da Associação Viver Bem.

Para ela, a diferença de um consumista para um comprador compulsivo seria o “sofrimento psicológico” que a compra causa. Quem tem o transtorno sente euforia enquanto compra, mas não sente prazer ao abrir as sacolas quando chega em casa. Enquanto o consumista gosta de mostrar as compras que fez, o comprador compulsivo tem vergonha e esconde.

“É uma ressaca. Depois que acaba a compulsão do momento, a pessoa sente profunda depressão e desinteresse pelo que comprou”, explica a psicanalista Denise Gimenez Ramos, professora titular do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC-SP.

Além do sofrimento, as dívidas são consequência da doença. O comprador compulsivo faz compras com frequência, não pergunta o preço e às vezes adquire todas as cores e formas possíveis do mesmo item.

Quem sofre do transtorno precisa de ajuda. O tratamento normalmente inclui a combinação de psicoterapia com medicamentos, que podem ser antidepressivos, ansiolíticos ou os dois.

Retornando ao tempo Natalino, a festa perdeu em muito as feições de rigor que seriam as memórias do nascimento do “Menino-Deus” para um ensejo de reunir pessoas e trocar presentes.

Que mal fizeram os reis magos ao presentear Jesus ao nascer com ouro, incenso e mirra, ato imitado por gerações futuras, insertas no sistema capitalista, no qual quem não tem ou não recebe “ouro, incenso e mirra” se sente à margem das alegrias dessa comemoração cristã?!

Com toda reverência à história de Jesus, sabemos que é na época de Natal em que se registram os maiores índices de consumo e de endividamento no país, ou seja, parece que o vermelho imperioso decorativo, que vão desde as luzes ao alegórico velhinho, Papai Noel, é perpassado ao clamor das contas bancárias no vermelho e que amarelam os consumistas descontrolados por bastante tempo, normalmente, até o Natal seguinte.

Por Maria Lopes