As expectativas e a confiança no segundo semestre do ano, historicamente, são melhores. O sentimento não fica limitado a economistas e empresários, mas também atinge os desempregados, que veem nas vagas temporárias uma chance de conseguir recolocação definitiva no mercado de trabalho. Para o Natal de 2019, devem ser gerados 3,7 mil empregos temporários no comércio cearense, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). A taxa de efetivação desses trabalhadores pode chegar a 40% em 2019.

A atendente Maria Luziana Pedrosa, de 40 anos, foi contratada como temporária no Imprensa Café há dois meses. Atuando como garçonete há 15 anos, ela estava há sete meses sem trabalhar. “Nesse período de fim de ano sempre aparece muitas oportunidades. Me veio muito a calhar esse trabalho. Eu não conhecia essa parte da gastronomia, de cafeteria, e estou encantada. Já até comecei a procurar cursos para me especializar”, afirma Maria Luziana.

Trabalhando pela primeira vez como temporária, ela fortalece a esperança da efetivação com o exemplo da irmã, que conseguiu um emprego definitivo através de uma vaga com regime semelhante. “Ela também é garçonete e passou mais de dois anos desempregada. Mas conseguiu uma oportunidade durante a alta temporada do meio do ano e, atendendo um dos clientes que gostou muito do desempenho dela, acabou conseguindo um emprego de carteira assinada”, conta Luziana.

Chances

Para aumentar as chances de efetivação, o assessor da presidência do Sistema Nacional de Emprego do Instituto de Desenvolvimento do Trabalho (Sine/IDT), Antenor Tenório, orienta que o trabalhador precisa agregar valor à empresa. “A empresa tem que entender que ele (trabalhador) é um diferencial da concorrência. Além do conhecimento técnico, os empregadores também estão levando muito em consideração as competências comportamentais, que têm se mostrado decisivas nos processos seletivos”, destaca Tenório.

Entre as competências ligadas ao comportamento, ele destaca as habilidades de aproximar o cliente, o poder de negociação, a capacidade de trabalhar sob pressão, e a boa desenvoltura ao acumular mais de uma função. “É importante também o profissional ser centrado, sabe o que quer dentro da empresa, se colocar à disposição, estudar sobre os valores, as diretrizes da empresa, enfim, ter uma carreira minimamente planejada”, acrescenta Tenório.

Já a coordenadora de RH do Beach Park, Selma Freitas, aponta que a assiduidade, a determinação, o comprometimento em querer aprender, e o interesse em se desenvolver dentro da empresa são os principais fatores para a contratação efetiva de um temporário. “Nossa taxa de efetivação gira entre 10% e 15%. Ao ser efetivado, o trabalhador pode vislumbrar outras vagas. Temos promoções, seleções internas. Hoje, temos temporários que já ocupam cargos de liderança”, destaca Selma.

Ícaro Florêncio é um dos exemplos. Começando a carreira com um estágio de guarda-vidas no Beach Park, ele conseguiu, por conta de uma oportunidade temporária, 14 anos depois, ser efetivado no parque aquático. Ícaro é, hoje, supervisor operacional. “O Beach Park me deu a oportunidade do primeiro emprego e eu cresci na empresa. Almejo evoluir mais e alcançar outros cargos como coordenador e gerente”, disse Florêncio.

O parque aquático está com cerca de 300 vagas temporárias abertas para diversos cargos. Os candidatos não precisam ter experiência. Selma Freitas orienta aos interessados que tenham confiança em si mesmo. “Não precisa ter medo do processo seletivo. A pessoa só precisa ser ela mesma e querer a vaga. Claro que existe uma concorrência nata, ainda mais nesse período de alto desemprego, mas é importante ter confiança em si”, diz.

Projeções

O prognóstico de geração de vagas temporárias no comércio cearense, neste ano, é 7,5% inferior ao registrado no ano passado (4 mil), segundo a CNC. A redução acompanha a expressiva queda de 6,5% na expectativa de faturamento do varejo no Natal. Segundo o levantamento, devem ser movimentados R$ 1,1 bilhão no Estado. Em 2018, a receita já havia sofrido retração de 0,4% em relação ao Natal de 2017.

A diretora institucional da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Ceará (Fecomércio-CE), Cláudia Brilhante, admite que a expectativa era que fossem geradas, pelo menos, 4 mil postos de trabalho temporários. “Ficou um pouco abaixo do que a gente esperava, mas esse número ainda pode surpreender”, aponta.

Ela ressalta que a economia vem dando sinais de aquecimento lento, mas progressivo. “Mês a mês, vem melhorando, com a baixa da inflação, juros sendo negociados a prazos maiores e, principalmente, com a liberação do FGTS e Pis/Pasep”, ressalta.

Entre os segmentos que mais devem gerar vagas temporárias estão o de vestuário e de calçados e acessórios, segundo a diretora institucional da Fecomércio-CE.

“Nas datas comemorativas, temos observado que o consumidor tem dado preferência a presentes desse segmento e é algo que agrada a todo mundo. Então, a maioria das vagas realmente deverá ser para vendedor”, afirma.

Aproveitamento

Sobre a taxa de efetivação, Brilhante avalia que o percentual de 40% divulgado em estudo pela Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL) é considerado alto. “É um número alto, mas nós acreditamos e esperamos que ele se concretize”, torce.

Já o presidente da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas (FCDL) do Ceará, Freitas Cordeiro, revela que a média histórica de efetivação no Estado é de 30%. “Normalmente, os efetivados correspondem a 30% dos temporários. Não tenho por que acreditar que alcançaremos os 40%. Geralmente, são criadas 4 mil oportunidades”, dispara.

Segundo o assessor da presidência do Sine/IDT, Antenor Tenório, a parcela efetiva ainda pode cair para 20% se considerados todos os segmentos. “Isso porque a maioria das vagas é realmente para o comércio. Então, quando acrescentamos os demais segmentos, a média é puxada para baixo”, explica Tenório.

Fonte: Diário do Nordeste