Lollapalooza Brasil, Argentina e Chile; Coachella na Califórnia; Tomorrowland na França; shows de Madonna a Billie Eilish; lançamentos cinematográficos aguardados como o live-action Mulan; desfiles de Giorgio Armani e Versace; o Instituto Inhotim, em Minas Gerais, e o Museu do Palácio na Cidade Proibida de Pequim — a pandemia do novo coronavírus afetou severamente a indústria cultural no mundo inteiro e suscitou adiamento, suspensão, cancelamento e interrupção das atividades de instituições artísticas e eventos desde o início de março. Com expressa recomendação de isolamento pela Organização Mundial da Saúde (OMS), palcos e plateias se esvaziaram como medida preventiva para evitar contágio. Diante das incertezas, artistas reinventam artes do fazer e lutam por sobrevivência também financeira.

É tempo de “Desfazer mundos, trabalhos/ Sentar-se num terraço lá atrás/ Tomar conta uns dos outros”, nos versos do poeta e tradutor português Miguel Cardoso. No último domingo, 15, a turnê “Alejandro Sanz & Juanes: El Gira se Queda en Casa para Todos” foi transmitida online. A sambista Teresa Cristina aproveitou a tarde de segunda, 16, para uma live no Instagram e cantou “alguns sambas imprescindíveis num momento como esse”. Para estimular a necessária quarentena, o Google Arts&Culture reuniu dezenas de museus e galerias ao redor do mundo que ofertam visitas virtuais ao acervo. Mas o esvaziamento de espaços físicos têm um preço.

“O cancelamento de eventos culturais são muito necessários neste momento, porém artistas e demais profissionais que trabalham nessas produções são atingidos diretamente. Artista só recebe se trabalhar — se não tem evento, não tem trabalho e por consequência não tem dinheiro”, pontua a cantora cearense Lidia Maria. “Em um plano ideal, os governos deveriam se inspirar em países como a Alemanha, que vai dar assistência financeira a artistas que tiverem eventos cancelados. As noções de justiça social devem atuar para garantir uma quarentena com dignidade a todos. O exemplo da França de cancelar os pagamentos de contas de água e afins contribui bastante para isso. No Brasil, diante do neoliberalismo de Bolsonaro, que tem declarado guerra à arte e aos artistas, é muito difícil acreditar que medidas assim sejam adotadas”, considera.

Aristides Oliveira, integrante da companhia teatral Comedores de Abacaxi S/A, reitera a necessidade de ações do poder público. “O Estado e o Município devem a quase todos os grupos, então essas duas instâncias de poder podem adiantar ou pagar o que nos devem para a gente não ficar tão desguarnecido neste momento de dificuldade coletiva”, observa. O grupo adiou a apresentação de “Las Chicas – Noite de apresentações artísticas por mulheres” e suspendeu os ensaios do infantil “A Galinha Do Papo De Pérolas”, que entraria em cartaz em junho. Na noite de ontem, 17, nomes ligados às artes como Aristides de Oliveira, Nelson Albuquerque (Pavilhão da Magnólia), Raimundo Moreira (Cia. Prisma de Artes), Edson Cândido e Eduardo Bruno reuniram-se na sede Chá de Abacaxi para debater as medidas de mitigação do prejuízo financeiro. “Tanto para criar quanto pra fruir, a gente precisa estar em grupo. Mesmo trabalhando em casa, isoladamente, o resultado desse trabalho deve ser mostrado e deve ser usufruído por todos. Sem público a gente não vive”, Aristides complementa.

Para o músico e produtor cultural Dalwton Moura, a pandemia de coronavírus “destaca a situação de extrema vulnerabilidade que vivem muitos dos representantes dessa cadeia da economia criativa. Muitos profissionais já vivem com uma renda incerta, com condições de trabalho extremamente desafiadoras e com a falta de uma proteção social”. Se os espectadores podem auxiliar comprando produtos como CDs, DVDs, blusas e pagando ingressos para assistir a apresentações online, por exemplo, as políticas públicas devem ir além. “É necessário, primeiro, um debate de contingência e de sobrevivência imediata desses artistas. E, se toda crise pode deixar uma lição após superada, é que a gente possa caminhar para a criação de uma rede de proteção social a esses artistas e profissionais que são tão importantes”, encerra Dalwton.

Em nota ao O POVO, a Secretaria da Cultura de Fortaleza (Secultfor) informou “que todos procedimentos para efetivação de pagamentos estão mantidos, desde que a documentação apresentada esteja em conformidade com contratos de prestação de serviço, a exemplo do pagamento dos artistas do Ciclo Carnavalesco 2020”. A pasta reforçou também que “atualmente, não existe na legislação vigente nenhum mecanismo que possibilite assistência financeira a artistas afetados pela não realização de eventos na cidade de Fortaleza” e se colocou à disposição para discutir com a classe sobre propostas acerca dos impactos neste período. A Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult), por sua vez, garante estar “desenvolvendo seu planejamento referente à política cultural, seja no âmbito de sua Rede de Equipamentos, de seus editais e de outras ações de fomento às artes. O objetivo é amenizar ao máximo os efeitos que a atuação situação possa trazer para execução das ações da Secult e, consequentemente, diminuir os impactos na vida dos artistas e de profissionais da cultura”.

Fonte: O Povo