O Rio de Janeiro, com mais de 17 milhões de habitantes (IBGE, 2018), continua lindo e violento. São 4 facções criminosas (TC – 3º comando; TCP – 3º comando puro; CV – comando vermelho [a maior]; ADA amigo dos amigos [menor e mais recente]). Cada presídio é domínio de uma facção. Com o advento da ERA CABRAL, acrescentaram-se ao Estado Paralelo as MILÍCIAS (formadas por bombeiros, militares [ativos e reformados], agentes penitenciários e policiais civis). As milícias se tornaram um “grande negócio” a partir do momento em que comerciantes passaram a “gratificar” seus integrantes, dada a satisfação com os “serviços” prestados.

Dados de 2018 atestam que o efetivo da PMERJ orbita na casa dos 45 mil policiais. Segundo Minayo (2008) 95% homens; idade média entre 36 e 45 anos; 62% com ensino médio; 61% do escalão superior e 58% de cabos e soldados são negros; 73% casados; 25% com filhos. Neste estudo constatou-se que a classe média e alta carioca e fluminense consideram a profissão de policial indesejável e inadequada. Já os policiais são unânimes: “as condições materiais, técnicas e ambientais não permitem o desenvolvimento adequado das atividades. Existe um forte grau de insatisfação (principalmente com a qualidade da alimentação na corporação)”.

Procedi um levantamento histórico ao longo dos últimos 14 anos acerca da violência contra policiais no RJ. Em média 146 foram baleados e, pelo menos, 77 morreram por ano, na série histórica. Entre 1995 e 2016 cerca de 3 mil PM’s foram mortos: 1 a cada 2 dias ou 1 a cada 64 horas. Essa taxa (1/399) é maior do que a da morte de soldados norte-americanos na II Guerra Mundial e nas Guerras da Síria (4/500), do Iraque (1/650) e do Afeganistão (1/817). Entre 2011 e 2015 ocorreu o aumento da ordem de 76% de policiais mortos em serviço. Resultado: 53% do efetivo da PMERJ vive tenso, nervoso e agitado; 55% dorme mal; 40% sofre de tristeza profunda (MINAYO, 2008).

No RJ o mês de janeiro de 2018 registrou o maior número de mortes violentas dos últimos 10 anos no referido mês (SOARES, 2018). Em 2017 foram 1227 mortes. Destas, 949 (88,5%) eram negros. Segundo Pitasse (2016) a taxa de homicídios foi quase 3 vezes maior entre os negros no ano de 2015, computando-se 63 mortos ao dia ou 1 a cada 23 minutos, na faixa etária dos 15 aos 29 anos. Os negros no RJ morrem mais que os brancos na proporção dos 72%. São cerca de 23 mil mortos por ano. É notório que no Estado do Rio de Janeiro existe um recorte de cor da pele quando o assunto é violência, seja ela cometida pelo braço armado estatal ou de ordem criminosa.

Não é a primeira vez que um carro é metralhado ou fuzilado no subúrbio cariosa. Em 2015 um carro com 5 jovens entre 16 e 20 anos de idade foi alvejado 111 vezes (81 disparos de fuzil e, 30 de pistolas) quando os mesmos, na mesma área geográfica do último ocorrido, se dirigiam a uma lanchonete. Estes 2 episódios tiveram como palco a área de jurisdição do 41º BMP da PMERJ, denunciado pela vereadora MARIELLE por ser o responsável por (coincidentemente) 41% das mortes violentas de sua área de controle (LUCENA, 2018). Ou seja, o braço armado do Estado Brasileiro é não só truculento, quando desce o cassetete na população civil. É também matador!

Segundo Braga (2018) os atores sociais que mais matam no Rio de Janeiro são 3: tráfico, milícia e polícia. Somente esta última respondeu por 23% das mortes no Estado do RJ. Contudo, estudiosos da área de saúde no trabalho (MINAYO, 2008; TURTE-CAVADINHA, 2016) corroboram com a tese de que “são urgentes e necessárias ações preventivas e de promoção da saúde mental nas corporações militares, de forma a melhorar a qualidade de vida e o bem-estar psíquico dos trabalhadores e familiares, com implicações, inclusive, sobre a violência intra e interpessoal, seja de cunho policial, doméstico e social”.

Para concluir quero registrar o meu posicionamento de que não tenho a menor dúvida do racismo existente em nossa sociedade. Contudo, em relação ao ocorrido com o músico carioca, é reducionista a visão por este recorte. Acredito sim em mais um episódio de pura inabilidade e incompetência do braço arma do Estado (Exército). Este por sua vez não tem a competência de garantir segurança em área urbana. Atente-se para o fato de que o carro alvejado é recoberto por insufilme que, por sua vez, impossibilita verificar ao longe a cor da pele de seus ocupantes. Foi sim uma ação descabida e desproporcional. Cabe à sociedade civil organizada pressionar para que seja feita JUSTIÇA! Contudo, que as discussões não sejam pautadas exclusivamente pelo viés de cor.

*Por Lucio José de Oliveira