Nos primeiros dias de “ação” (se assim podemos dizer) do atual (des) governo do Brasil, fomos surpreendidos com a fala de um de seus ministros, informando-nos que “a terra é plana”. Por se tratar de uma equipe (?) totalmente contraditória, um outro membro, que já foi à Lua, em missão astronáutica, diz sentir “nódulos no estômago” quando ouve esta versão acerca do nosso planeta. Criou-se um hiato, um verdadeiro vácuo, entre os tempos medievais e o futurismo de Jornada nas Estrelas. Apenas um dos inúmeros retrocessos em nossa realidade recente.

A assunção deste novo mandatário na condução (?) dos rumos da nossa República finalmente trouxe à tona aquilo que o poeta Cazuza tanto solicitava: “Brasil mostra a tua cara!”. Finalmente foi possível aos brasileiros saírem do armário e assumir pública e notoriamente as suas convicções. Nossa sociedade foi reconfigurada. Ficou claro se tratar de um caso de bipolaridade em massa. Nossos cidadãos e cidadãs, por um processo de divisão binária, se agruparam entre os “CONTRA” e os “FAVORÁVEIS”. Como isso é terrível!

Estamos vivendo de forma medieval. Falta-nos neste momento uma autoridade Real para proclamar: “Favoráveis, à minha direita; contrários, à minha esquerda!”. Já não é mais possível a prática do COMviver. Esta simplificação da vivência, onde somente os iguais e que pensam por igual podem se aproximar, está tornando o nosso mundo muito chato! Formaram-se guetos onde somente uma mesma linguagem é aceita e é entendida por seus participantes. Destonar e/ou destoar é terminantemente proibido! Ou reza nesta cartilha, ou fique calado!

Por incrível ou até mesmo contraditório que se pareça, aqueles que bradam em defesa da diversificação e da diversidade, não aceitam opiniões que sejam diferentes ou sejam contrárias; aqueles que se dizem lutar em prol da NÃO VIOLÊNCIA, propõem e cometem a mais marcante e desestruturante psicológica das violências: a VIOLÊNCIA SIMBÓLICA!; os arautos defensores da moralidade, dos bons costumes e incólumes cristãos, têm se mostrado verdadeiros DÉSPOTAS ESCLARECIDOS e aqueles que deveriam ser os intransigentes defensores e cumpridores da LEI, são compulsivos infratores.

Pesquisei a descrição de chato: “orgulhoso de sua história, ela é só sua: o interlocutor tem que entendê-la tal qual, nos mínimos detalhes, arriscando inclusive ter que responder a uma sabatina para provar a boa atenção” (FORBES, s/d). O autor o diferencia do poeta: “escritor criativo, que por sua vez, quando nos apresenta suas peças, ou nos relata, não se preocupa com o que julgamos ser seus devaneios”. Na realidade, sentimos um grande prazer, provavelmente originário da confluência de pensamentos. Ou seja, precisamos urgentemente de mais poesias e poetas.

́Poeta ́ vem do termo ‘poiesis’, justamente: criar, inventar, fazer. Por uma história de um neurótico, ninguém passa, só assistem a ela; por uma história de poeta, muitas outras histórias passam. Com sua posição de responsabilidade ética, e por sua estética aberta, generosa, o poeta faz com que nós também nos livremos das autoacusações acachapantes e nos arrisquemos a inventar soluções mais singulares a nossos desejos (FORBES, s/d). A sociedade brasileira está chata por causa dos extremismos…

Mais do que nunca, precisamos COMversar! “A conversa tem um papel central em todos os caminhos para iniciar relacionamentos amorosos, tais como na paquera entre desconhecidos ou na transformação de relacionamentos que já existem em relacionamentos amorosos. Esse relacionamento entre desconhecidos não consiste apenas numa paquera à distância. Para ser efetivado, geralmente existe o teste da conversa” (SILVA, 2009). Os expertise em chatice geralmente apresentam maneiras específicas de ser chato: forçam conversas e temas; monopolizam os papéis de falante ou de ouvinte; mostram desatenção; interrompem demais ;dão conselhos não solicitados e assumem o papel de ladrões de holofotes.

“A chatice não está no DNA. Senão, as pessoas chatas seriam sempre chatas. E não é o que acontece. Elas são chatas nalgum momento, nalguma situação e com algumas pessoas. E geralmente não percebem os sinais dados pelas outras pessoas que lhes acham chatas. Portanto, as pessoas não nascem chatas, elas se tornam chatas”(NASCIMENTO, s/d). E esse tornar-se é motivado pelo sectarismo, pela falta de um estado democrático de ser e do Ser. Conversar, ouvir, falar, libertar(se),promover a verdadeira liberdade, desapegar(se).

Precisamos aprender a conjugar!

*Por Lúcio José de Oliveira

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