Na manhã da última quinta (24), o governador Camilo Santana (PT) estava com o prefeito Roberto Cláudio e o senador Cid Gomes, ambos do PDT, na inauguração do Centro de Formação de professores da Capital. Lá, os três destacaram políticas públicas fruto da parceria política e administrativa que mantêm entre Estado e Prefeitura de Fortaleza. Eles formam um mesmo grupo político.

Quase ao mesmo tempo, na tribuna da Assembleia, o deputado Acrísio Sena (PT), que se tornou um dos principais interlocutores de Camilo no partido, destacava as obras do Estado na Capital e o papel preponderante que Camilo terá, na visão dele, no processo eleitoral de 2020 em Fortaleza.

Os dois episódios se somaram a outros acontecimentos que fizeram da última semana uma linha divisória para o governador neste período pré-eleitoral da Capital. Direta e indiretamente, reforçaram a posição de destaque do chefe do Executivo Estadual no cenário eleitoral, sobre o qual ele mesmo tem evitado falar. A mensagem é que não há disposição do governador de manter uma neutralidade no jogo eleitoral e nem romper a aliança com o PDT.

Conjeturas

No início da semana, o jornal O Estado de São Paulo publicou uma entrevista com Camilo em que ele fez uma crítica – incomum – à estratégia do ex-ministro Ciro Gomes (PDT) de fazer ataques frequentes ao PT. Ciro é aliado de primeira hora do governador.

Na entrevista, Camilo deixa clara a “sólida aliança” que mantém com os Ferreira Gomes no Ceará – uma leitura apressada poderia dar impressão errada de enfrentamento. Não é. Com a declaração, porém, o governador marcou posição no debate de estratégia eleitoral para 2022, cuja preparação passa por 2020.

Aliás, a despeito de críticas contundentes que Ciro vem fazendo ao PT, a declaração do presidente estadual do PDT, André Figueiredo, de que a cúpula nacional pedetista busca manter um diálogo e ouvir o PT sobre a sua estratégia para a eleição, ameniza o clima de cisão e, mesmo indiretamente, respalda a visão de Camilo.

O fato é que a declaração do governador gerou conjeturas na ampla base aliada no Estado. Na mesma semana, interlocutores de Camilo fizeram circular na imprensa e nas rodas de conversa uma recente pesquisa do Palácio Abolição, segundo a qual o petista aparece com boa avaliação em Fortaleza, com detalhes da atuação na Segurança Pública, ponto sensível da percepção social e com reflexos diretos no clima eleitoral. Segundo as informações, boa parte da população apoia a atuação do Estado na área.

A outra sinalização, a qual já nos referimos, foi o pronunciamento de Acrísio Sena na Assembleia em que detalhou os investimentos do Estado em parceria com a Prefeitura em Fortaleza. Segundo ele, desde 2015, já são R$ 2 bilhões investidos pelo Estado em obras importantes como túneis, escolas e unidades de saúde. “Este programa representa algo novo em nosso Estado, pois do período de Juracy Magalhães até Luizianne, as relações com os governadores sempre foram marcadas por tensões”.

Turbulências

A fala de Acrísio mirava dois alvos. Para dentro do PT, dava o recado de que o Governo do partido tem parceria na Capital e faz investimentos importantes – reconhecidos pelas pessoas. E para fora, mostrava que o êxito do Governo municipal tem o apoio “decisivo” de Camilo Santana.

Por falar em PT, o partido do governador vive clima interno de debate eleitoral na Capital. Há duas teses: uma tenta impor a candidatura de Luizianne Lins, em oposição ao PDT. Outra defende candidatura própria, mas com outro nome. No meio disso, uma ala argumenta que o governador não só deve ser ouvido, como precisa ter papel central no processo de decisão sobre a tática eleitoral petista.

A eleição do vereador Guilherme Sampaio ao diretório municipal de Fortaleza pegou de surpresa o grupo da ex-prefeita Luizianne, que ficou em segundo lugar. Desde então, os embates cresceram. Na Câmara, Guilherme faz oposição a Roberto Cláudio. No entanto, a sua chegada ao comando da sigla, tendo sido escolhido pelo voto da maioria interna, trouxe ao debate um elemento novo. Ele tem planos de ser candidato a prefeito e tem diálogo com Camilo, diferente de Luizianne.

“A própria eleição (de Guilherme) foi uma sinalização de que o PT quer mudança. Quer algo diferente”, diz uma fonte do partido. Recentemente, o ex-presidente municipal do PT, Raimundo Ângelo, disse ao PontoPoder, site especializado em Política do Sistema Verdes Mares, que os petistas que não defendem o nome de Luizianne Lins “não querem uma candidatura pra valer”. Alguns correligionários fizeram até print da nota para guardar.

Aproveitando o clima de embate, aliados de Camilo, entre os quais está o deputado Acrísio Sena, tentam disseminar a ideia de que ele deve ser protagonista. “Tem gente no PT querendo que o governador fique neutro na Capital. Sendo que o que a gente precisa é de uma liderança forte na Capital e só quem tem hoje é o governador. Vamos abrir mão?”, questiona outra liderança. “O PT tem que ouvir o governador e entender que ele faz um Governo de coalizão com outros partidos como o PDT”, complementa.

Antes do processo de escolha dos novos dirigentes municipais, petistas da Capital, aliados de Luizianne, diziam que o PT se preparava para ter candidato próprio na eleição do ano que vem com “expectativa zero” de contar com Camilo em seu palanque. Mas a conjuntura mudou e o grupo que quer alternativa no PT cresceu. Por conta disso, a temperatura interna subiu.

Processo decisivo

Camilo Santana, é preciso deixar claro, faz parte do quarteto de ferro, composto também por Ciro, Cid e Roberto Cláudio, que decidirá o rumo do grupo político que está no Poder. Por tratar-se de uma eleição municipal, pelo peso político que adquiriu e por ser o presidente municipal do PDT, o prefeito deve conduzir a sua sucessão, como têm dito publicamente as lideranças do PDT. Há gargalos, porém, a serem superados até as convenções partidárias no ano que vem. Mas o jogo está em andamento.

Fonte: Diário do Nordeste