Cada juazeirense tem um pouco de romeiro dentro de si. Seus pais, avós ou bisavós certamente foram atraídos ao Cariri pela devoção a Padre Cícero ou pela perspectiva de prosperidade na “terra santa”, a quem muitos atribuem ser a “Nova Jerusalém” do sertão nordestino.

Comigo não é diferente. Minha avó materna nasceu em Pedra Branca, no Sertão Central. Já o marido mudou-se de mais longe, do município de Assembleia – atual Viçosa, em Alagoas. Meus avós paternos vieram do Rio Grande do Norte, de Encanto, no Alto Oeste Potiguar. Achou confuso? Quantas outras histórias se encontraram neste pedaço de chão?

Mesmo eu sendo nativo de Juazeiro do Norte, é normal estranhá-la. Por exemplo: você pode fazer um passeio pela Rua São Pedro, principal via comercial, e dar de cara com uma carroça em pleno asfalto escaldante ou com um carro importado caríssimo.

Como uma cidade jovem, com 108 anos, a terra do Padre Cícero se transformou rapidamente e reuniu tudo o que foi possível no entorno da atual Basílica de Nossa Senhora das Dores, onde tudo começou. Mais de 96% do seu território são urbanizados. Uma ebulição cultural, econômica e social na Região Sul do Ceará.

É por tudo isso que o Município apresenta o que considero seus maiores defeito e qualidade. O primeiro é a facilidade de mutação. Transforma-se tanto que deixa de preservar sua história. A maior parte dos prédios do início do século XX deu lugar a edificações comerciais modernas. Mas é difícil outro lugar no mundo que consiga criar e “dar sentido” a novos símbolos como esta cidade.

Exemplo dessa constatação está na Colina do Horto, ponto mais alto da cidade e local de peregrinação. Até a estátua do Padre Cícero ser inaugurada, em 1969, a fé romeira já a considerava um lugar sagrado. Lá, supostamente, o sacerdote costumava rezar e fazer retiro sob dois pés de timbaúba. As árvores foram derrubadas para ser erguidas as antenas de televisão. Quer símbolo de progresso melhor que este?

Mesmo 85 anos após a morte do Padre Cícero, milhares de romeiros, como meus avós, retornam a Juazeiro do Norte e fazem “o caminho que o Padre Cícero percorreu”, como acredita o padre Cícero José, pároco da Basílica de Nossa Senhora das Dores. É esse trajeto, pautado pela santificação dos locais onde o “padrinho pisou”, que torna este Município especial, mesmo acompanhando a modernização.

Percurso a pé

Sem carroça ou carro importado, a melhor forma de conhecer Juazeiro do Norte é do mesmo jeito que fez o “Padrinho” do Crato até aqui: a pé. Por isso, sugiro um “roteiro da fé” que pode ser realizado, em sua maioria, no Centro da cidade. Dá para conhecer todos equipamentos em um só dia. Nenhum deles cobra entrada.

De água e chapéu na mão, o primeiro local que indico é onde essa história secular começou. Em 1871, o Padre Cícero Romão Batista pisou, pela primeira vez, a Vila Tabuleiro Grande, que pertencia ao Crato. Ao chegar ao povoado, dizem que o sacerdote encostou na sombra de dois pés de juá para descansar, antes de celebrar a Missa do Galo. As árvores, que depois batizariam o Município, não existem mais, porém o marco-zero de Juazeiro foi identificado na atual Praça Beata Maria de Araújo.

A poucos metros dali, está a Basílica de Nossa Senhora das Dores, cenário de um dos momentos mais importantes e controversos da história da cidade: o suposto “Milagre da Hóstia” ou “Milagre de Joaseiro”. Foi lá que, em 1889, durante celebração ministrada pelo Padre Cícero, a hóstia teria se transformado em sangue na boca da beata Maria de Araújo.

Da Basílica, caminhe dois minutos e chegue à Casa Museu do Padre Cícero, na Rua São José. A última residência dele antes de morrer, em 1934, abriga peças e móveis de uso pessoal. Muito bem conservada, recebe também os chamados ex-votos, esculturas de madeira usadas para pagar promessas. Eles podem ser comprados lá por R$ 5 em média.

Memorial

Um pouco mais longe, a cerca de 400 metros, está o Memorial Padre Cícero, inaugurado em 1988. Também reúne vários objetos de uso pessoal do “Padim”, como vestimentas e louças. O que me chama mais atenção é o canhão exposto, capturado pelos jagunços que lutaram pelo sacerdote, em 1914, no episódio conhecido como a “Sedição de Juazeiro”, quando os juazeirenses lutaram e venceram as forças do Estado, depondo o governador Franco Rabelo.

Túmulo

Em frente ao Memorial, está a Capela do Socorro. Antes de entrar no local onde está sepultado o corpo do Padre Cícero, bem em frente ao templo religioso, há uma estátua em tamanho real do sacerdote feita pelo escultor italiano Agostinho Balmes Odísio.

Até conversar com a historiadora e pesquisadora Amanda Teixeira, nunca havia percebido a importância daquele monumento para a história local. Ela conta que, antes da construção da estátua na Colina do Horto, aquele era o cartão-postal da cidade, objeto de devoção e campanhas publicitárias, inclusive de políticos. Sua inauguração aconteceu entre 1934 e 1940.

Enfim, dentro da Capela do Socorro está enterrado o fundador da cidade. Todas as vezes que estive lá sempre encontrei alguém de joelhos, aos pés do túmulo, rezando, alguns até emocionados. Na Romaria de Finados, a próxima acontecerá em 2 de novembro, estima-se que 100 mil pessoas visitem o jazigo. Algumas costumam tocar a lápide com objetos como bolsas, garrafa de água, carteiras, para serem “abençoados” pelo “Padrinho”.

Casa dos Milagres

Ainda no largo da Capela do Socorro, está a Casa dos Milagres, principal destino de ex-votos pelos romeiros. Sua criação aconteceu porque não havia um local adequado para receber as promessas das milhares de pessoas que chegavam a Juazeiro. O local, considerado místico pela crença popular, sofreu com um incêndio em agosto de 2013, mas foi reaberto dois meses depois.

Praça Padre Cícero

A última parada no Centro é a Praça Padre Cícero, recém-reinaugurada, com uma estátua de bronze do sacerdote abaixo da torre do relógio. Apesar da perceptível semelhança, já vi muita gente não reconhecer o fundador da cidade. Isso acontece porque a obra, encomendada pelo médico e político Floro Bartolomeu, não traz o “padrinho” como o santo popular que o consagrou, mas como o “homem político”, vestindo uma toga romana, debaixo do sol, sem proteção.

Colina do Horto

Do Centro, o meu destino agora é a Colina do Horto, onde está um dos principais pontos turísticos do Cariri: a estátua do Padre Cícero. Para chegar lá, pode-se optar por pegar um ônibus, no Memorial Padre Cícero (R$ 2,40), ou serviço de transporte como táxi ou mototáxi. Com motorista de aplicativo, por exemplo, o preço varia entre R$ 6 e R$ 10.

Lá em cima, está a estátua de 27 metros, que completará 50 anos de inauguração no dia 1º de novembro. O cartão-postal tem uma bela vista de Juazeiro, de municípios vizinhos e da Chapada do Araripe. No monumento, romeiros deixam fitinhas amarradas aos pés do “santo popular”. Os mais devotos cumprem o ritual de dar três voltas no cajado rezando e fazendo novos pedidos.

Cada juazeirense tem um pouco de romeiro dentro de si. Seus pais, avós ou bisavós certamente foram atraídos ao Cariri pela devoção a Padre Cícero ou pela perspectiva de prosperidade na “terra santa”, a quem muitos atribuem ser a “Nova Jerusalém” do sertão nordestino.

Comigo não é diferente. Minha avó materna nasceu em Pedra Branca, no Sertão Central. Já o marido mudou-se de mais longe, do município de Assembleia – atual Viçosa, em Alagoas. Meus avós paternos vieram do Rio Grande do Norte, de Encanto, no Alto Oeste Potiguar. Achou confuso? Quantas outras histórias se encontraram neste pedaço de chão?

Mesmo eu sendo nativo de Juazeiro do Norte, é normal estranhá-la. Por exemplo: você pode fazer um passeio pela Rua São Pedro, principal via comercial, e dar de cara com uma carroça em pleno asfalto escaldante ou com um carro importado caríssimo.

Como uma cidade jovem, com 108 anos, a terra do Padre Cícero se transformou rapidamente e reuniu tudo o que foi possível no entorno da atual Basílica de Nossa Senhora das Dores, onde tudo começou. Mais de 96% do seu território são urbanizados. Uma ebulição cultural, econômica e social na Região Sul do Ceará.

É por tudo isso que o Município apresenta o que considero seus maiores defeito e qualidade. O primeiro é a facilidade de mutação. Transforma-se tanto que deixa de preservar sua história. A maior parte dos prédios do início do século XX deu lugar a edificações comerciais modernas. Mas é difícil outro lugar no mundo que consiga criar e “dar sentido” a novos símbolos como esta cidade.

Exemplo dessa constatação está na Colina do Horto, ponto mais alto da cidade e local de peregrinação. Até a estátua do Padre Cícero ser inaugurada, em 1969, a fé romeira já a considerava um lugar sagrado. Lá, supostamente, o sacerdote costumava rezar e fazer retiro sob dois pés de timbaúba. As árvores foram derrubadas para ser erguidas as antenas de televisão. Quer símbolo de progresso melhor que este?

Mesmo 85 anos após a morte do Padre Cícero, milhares de romeiros, como meus avós, retornam a Juazeiro do Norte e fazem “o caminho que o Padre Cícero percorreu”, como acredita o padre Cícero José, pároco da Basílica de Nossa Senhora das Dores. É esse trajeto, pautado pela santificação dos locais onde o “padrinho pisou”, que torna este Município especial, mesmo acompanhando a modernização.

Percurso a pé

Sem carroça ou carro importado, a melhor forma de conhecer Juazeiro do Norte é do mesmo jeito que fez o “Padrinho” do Crato até aqui: a pé. Por isso, sugiro um “roteiro da fé” que pode ser realizado, em sua maioria, no Centro da cidade. Dá para conhecer todos equipamentos em um só dia. Nenhum deles cobra entrada.

De água e chapéu na mão, o primeiro local que indico é onde essa história secular começou. Em 1871, o Padre Cícero Romão Batista pisou, pela primeira vez, a Vila Tabuleiro Grande, que pertencia ao Crato. Ao chegar ao povoado, dizem que o sacerdote encostou na sombra de dois pés de juá para descansar, antes de celebrar a Missa do Galo. As árvores, que depois batizariam o Município, não existem mais, porém o marco-zero de Juazeiro foi identificado na atual Praça Beata Maria de Araújo.

A poucos metros dali, está a Basílica de Nossa Senhora das Dores, cenário de um dos momentos mais importantes e controversos da história da cidade: o suposto “Milagre da Hóstia” ou “Milagre de Joaseiro”. Foi lá que, em 1889, durante celebração ministrada pelo Padre Cícero, a hóstia teria se transformado em sangue na boca da beata Maria de Araújo.

Da Basílica, caminhe dois minutos e chegue à Casa Museu do Padre Cícero, na Rua São José. A última residência dele antes de morrer, em 1934, abriga peças e móveis de uso pessoal. Muito bem conservada, recebe também os chamados ex-votos, esculturas de madeira usadas para pagar promessas. Eles podem ser comprados lá por R$ 5 em média.

Memorial

Um pouco mais longe, a cerca de 400 metros, está o Memorial Padre Cícero, inaugurado em 1988. Também reúne vários objetos de uso pessoal do “Padim”, como vestimentas e louças. O que me chama mais atenção é o canhão exposto, capturado pelos jagunços que lutaram pelo sacerdote, em 1914, no episódio conhecido como a “Sedição de Juazeiro”, quando os juazeirenses lutaram e venceram as forças do Estado, depondo o governador Franco Rabelo.

Túmulo

Em frente ao Memorial, está a Capela do Socorro. Antes de entrar no local onde está sepultado o corpo do Padre Cícero, bem em frente ao templo religioso, há uma estátua em tamanho real do sacerdote feita pelo escultor italiano Agostinho Balmes Odísio.

Até conversar com a historiadora e pesquisadora Amanda Teixeira, nunca havia percebido a importância daquele monumento para a história local. Ela conta que, antes da construção da estátua na Colina do Horto, aquele era o cartão-postal da cidade, objeto de devoção e campanhas publicitárias, inclusive de políticos. Sua inauguração aconteceu entre 1934 e 1940.

Enfim, dentro da Capela do Socorro está enterrado o fundador da cidade. Todas as vezes que estive lá sempre encontrei alguém de joelhos, aos pés do túmulo, rezando, alguns até emocionados. Na Romaria de Finados, a próxima acontecerá em 2 de novembro, estima-se que 100 mil pessoas visitem o jazigo. Algumas costumam tocar a lápide com objetos como bolsas, garrafa de água, carteiras, para serem “abençoados” pelo “Padrinho”.

Casa dos Milagres

Ainda no largo da Capela do Socorro, está a Casa dos Milagres, principal destino de ex-votos pelos romeiros. Sua criação aconteceu porque não havia um local adequado para receber as promessas das milhares de pessoas que chegavam a Juazeiro. O local, considerado místico pela crença popular, sofreu com um incêndio em agosto de 2013, mas foi reaberto dois meses depois.

Praça Padre Cícero

A última parada no Centro é a Praça Padre Cícero, recém-reinaugurada, com uma estátua de bronze do sacerdote abaixo da torre do relógio. Apesar da perceptível semelhança, já vi muita gente não reconhecer o fundador da cidade. Isso acontece porque a obra, encomendada pelo médico e político Floro Bartolomeu, não traz o “padrinho” como o santo popular que o consagrou, mas como o “homem político”, vestindo uma toga romana, debaixo do sol, sem proteção.

Colina do Horto

Do Centro, o meu destino agora é a Colina do Horto, onde está um dos principais pontos turísticos do Cariri: a estátua do Padre Cícero. Para chegar lá, pode-se optar por pegar um ônibus, no Memorial Padre Cícero (R$ 2,40), ou serviço de transporte como táxi ou mototáxi. Com motorista de aplicativo, por exemplo, o preço varia entre R$ 6 e R$ 10.

Lá em cima, está a estátua de 27 metros, que completará 50 anos de inauguração no dia 1º de novembro. O cartão-postal tem uma bela vista de Juazeiro, de municípios vizinhos e da Chapada do Araripe. No monumento, romeiros deixam fitinhas amarradas aos pés do “santo popular”. Os mais devotos cumprem o ritual de dar três voltas no cajado rezando e fazendo novos pedidos.

Ao lado da estátua, a Casa Museu do Padre Cícero abriga personagens de resina de poliéster em tamanho real. Os cenários vão desde o “Padrinho” tomando café da manhã com amigos, até ele rezando uma missa ao lado da beata Maria de Araújo. Aliás, este é um dos poucos lugares onde há menção à mulher que muitos pesquisadores consideram protagonista do milagre.

Santo Sepulcro

Por último, indico um local que visitei há 13 anos: o Santo Sepulcro. O percurso tem cerca de 4km a partir da estátua. Formado por grandes pedras, cruzeiros e estacas de madeira, o local se tornou espaço de devoção popular. Refúgio dos beatos do Padim, ganhou várias capelinhas, também alvo de ex-votos. Além da visão panorâmica, há grandes rochas que desafiam os fiéis para passar entre elas e “purificar de seus pecados”. Mais jovem e com quilos a menos, eu consegui realizar o trajeto e ficar com minha alma mais tranquila.

Roteiro

Como chegar

De carro, há várias rotas para se deslocar de Fortaleza a Juazeiro do Norte, a 520 Km da Capital. Pode-se viajar pelas BR-116 ou Estrada do Algodão (CE-060), e seguir as indicações até chegar à terra do Padre Cícero. De avião, as empresas Azul e Gol operam o trecho Juazeiro-Fortaleza e, de ônibus, a Expresso Guanabara.

Onde ficar

Há várias opções de hospedagem, desde ranchos para romeiros, hostel, pousadas e hotéis. Juazeiro do Norte concentra quase oito mil leitos. Há ainda opções em cidades vizinhas do Cariri. Para saber mais, acesse: bit.Ly/hospedagemcariri.

Show de Fagner

No Dia dos Romeiros, 1º de novembro, mesma data em que se comemora os 50 anos de inauguração da estátua do Padre Cícero no Horto, o cantor Raimundo Fagner fará show, às 21h, no pátio da Basílica Menor de Nossa Senhora das Dores. O acesso é gratuito.

Roteiro de fé

Para saber mais informações sobre os locais citados nesta matéria, acesse o site.

Terra Natal do Padre Cícero

Nos últimos anos, muitos romeiros têm ultrapassado as fronteiras de Juazeiro do Norte para estar mais próximo do “Padim”. Em Crato (a 12 km), cidade onde o santo popular nasceu e se criou, também é possível encontrar marcas importantes da passagem do sacerdote. A Sé Catedral, por exemplo, onde o sacerdote foi batizado, ainda preserva a pia batismal em que aconteceu a cerimônia e exibe aos visitantes uma cópia do livro de batismo que registra, pela primeira vez, o nome de Cícero Romão Batista.

Passeio pelo Cariri

Junto a Juazeiro do Norte, as cidades de Crato e Barbalha formam o triângulo Crajubar e são ligadas por vias com ótima infraestrutura. Já Nova Olinda, fica a 55 km de Juazeiro. Dessa cidade, são cerca de 15 minutos de carro até Santana do Cariri e 50 minutos a Assaré. Confira um roteiro de três dias no site.

Fonte: Diário do Nordeste