A família do homem de 38 anos que foi morto por um sniper do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar do Ceará na localidade de Tapera, em Aquiraz, na Grande Fortaleza questiona a ação da PM. O homem mantinha a ex-mulher sob a mira de uma faca. O caso foi registrado na tarde desta segunda-feira (16).

Em nota, a Polícia Militar do Ceará informou que a ação policial foi embasada na Doutrina Nacional de Gerenciamento de Crise, e está de acordo com a Legislação Estadual, que contém um decreto regulando o Gerenciamento de Crise. (leia a nota na íntegra abaixo)

Carmosita de Paula, irmã da vítima, que o irmão precisava de ajuda psicológica e que era trabalhador e cuidava dos três filhos.

“Nós estamos muito decepcionados, principalmente com a polícia, porque não necessitava dele (policial) ter feito o que fez. De eles terem matado, porque os policiais atiraram para matar e não precisava. Meu irmão estava doente, estava precisando de ajuda psicológica e não estava precisando de polícia para matar ele. Ele não era bandido, era pai de três filhos, cuidava da minha mãe, que tem 80 anos e cuidava muito bem dos filhos dele. Trabalhava, muito trabalhador meu irmão, não necessitava disso”, disse, emocionada.

Após os tiros, o cunhado Eudismar Cavalcante contou que correu para perto do corpo da vítima e perguntou para os policiais qual local do corpo o agente acertou.

“Cheguei ao local e perguntei qual região tinham atirado nele. Eles negaram, mas quando olhei para o lado eles estavam chutando a terra para cima do sangue. Quando vi a quantidade falei: ‘cara vocês atiraram para matar”? Já saíram levando a mulher dele [vítima] e não me responderam nada, saíram para a ambulância e foi levado para o Hospital de Aquiraz”, disse.

“Eles deveriam agir com mais cautela, pedir um pouco de ajuda até mesmo dos familiares, tentar amenizar a situação. Se eles queriam agir de alguma forma, como você vê a distância aqui do terreno, tem vários locais para os policiais se esconderem, poderiam até disparar uma arma elétrica. Como era uma faca pequena, eu creio que com um tiro com uma arma elétrica ele teria soltado a faca, teria sobrevivido, mas aconteceu essa fatalidade”, lamentou Cavalcante.

Sem contato com familiares
Uma testemunha que presenciou a ação policial disse em entrevista ao G1 que a primeira equipe da polícia tirou todos do local. A testemunha falou também que em um certo momento a vítima pediu para ver e falar com familiares, porém, os policiais não permitiram.

“Quando eu cheguei era por volta de 16h40. A primeira equipe policial chegou e expulsou logo todo mundo. Só que eu dei um jeito de ficar mais próximo. Ele queria os amigos presentes, mas a polícia não deixou. Teve amigos policiais que pediram para conversar com ele, mas não deram ordem. Teve familiares que quiseram se aproximar, não deixaram. O sobrinho dele também quis se aproximar, mas não deixaram para conversar. Como a gente conhece ele há muito tempo, há muitos anos, se tivesse deixado a família se aproximar, não teria acontecido isso”, disse.

A polícia ressaltou na nota que familiares estão envolvidos emocionalmente na ocorrência, portanto, segundo a Doutrina de Gerenciamento de Crise, não devem ficar inseridos dentro do Perímetro Interno da Ocorrência, devendo permanecer, apenas, os policiais militares”.

Negociação de cinco horas
De acordo com a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), agentes de segurança tentaram negociar com o homem a liberação da mulher durante cinco horas. Segundo a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social, “ao perceber que ele (o suspeito) estava determinado a golpear sua ex-companheira, um sniper do Bope agiu, neutralizando o suspeito com um disparo de arma de fogo”.

Segundo familiares, a mulher estava sentada na cacimba e o ex-marido estava atrás com uma faca no pescoço dela, quando o policial o atingiu com um tiro sniper. O caso aconteceu em um terreno por trás da residência onde o casal morava quando estava junto.

A mulher foi resgatada e socorrida para uma unidade de saúde, onde recebeu atendimentos. Em seguida, ela e os policiais que participaram da ação foram até a Delegacia Metropolitana de Eusébio, onde o caso foi registrado.

Leia na íntegra a nota da Polícia Militar do Ceará:

“A Polícia Militar do Ceará informa que a ação policial foi completamente embasada na Doutrina Nacional de Gerenciamento de Crise, e de acordo com a Legislação Estadual, que tem um decreto que regula o Gerenciamento de Crise.

Em nenhum momento foi utilizado de violência com o causador da crise, tendo em vista o fato de a equipe de negociação do Batalhão de Operações Especiais (BOPE) da PMCE possuir especializações na área. Inclusive, o Gerente da Crise fez um treinamento específico nos Estados Unidos da América e o Oficial chefe da Equipe de Negociação retornou recentemente de São Paulo, onde fez um treinamento sobre “Negociação” na PMESP, que é referência nacional na área.

Os familiares estão envolvidos emocionalmente na ocorrência, portanto, segundo a Doutrina de Gerenciamento de Crise, não devem ficar inseridos dentro do Perímetro Interno da Ocorrência, devendo permanecer, apenas, os policiais militares.

Existem relatos, de acordo com a doutrina, de várias outras situações em que um familiar provocou uma situação de risco, resultando em perda de vítimas, a exemplo do caso “Eloá”, em 2008.

Em relação à ocorrência do BOPE, o sniper foi acionado e autorizado a agir neutralizando o agressor no exato momento em que este estava determinado a matar a vítima”.

Fonte: G1 Ceará