O futebol é democrático. Poético como a vida, político como a sociedade, o esporte mais popular do mundo é amplamente hegemônico e se difunde cada vez mais com raízes na paixão. Da terra batida ao gramado perfeito, basta um instrumento que role – seja de meia, couro ou plástico – para fazer o esporte acontecer. Não há filosofia que explique a realização aos que se mantêm resistentes por natureza ou convicção. A magia é dada aos que se permitem sentir essa linguagem universal.

Projetado pela elite branca da coroa britânica, que teve a ideia de colocar algumas regras no papel para o que já existia há mais de 3.000 anos A.C., o futebol se criou na burguesia e ascendeu um negro aos status de Rei. A linha espessa das classes sociais vira tênue no gol: a hierarquia é quebrada por um abraço e chega ao fim quando todos sofrem ou vibram juntos movidos por genuína emoção.

Futebol no Brasil

Chegou ao País em 1895 e demorou pouco para se instalar na cultura do povo. No Ceará, a primeira partida é datada de 24 de dezembro de 1904, na Praça do Passeio Público, entre trabalhadores do Porto de Fortaleza e marinheiros de um navio britânico atracado na Capital. O patrono do esporte no Estado foi o cearense José Silveira, que regressava dos estudos na Suíça com a bola na mala.

Praticado pela alta sociedade cearense, o futebol logo foi incorporado às escolas e praticado nas ruas. Hoje, com palcos como a Arena Castelão e o Presidente Vargas (PV), o primeiro foi o Campo do Prado, em 1914. Localizado no bairro Benfica, o espaço se tornou o principal reduto na época e sediou o torneio inaugural de futebol no Estado um ano depois, a Liga Metropolitana Cearense.

Na final, o Rio Branco (Ceará) venceu o Stella (Fortaleza), por 2 a 1, em jogo que fomentou a rivalidade depois denominada de Clássico-Rei. Além das equipes, Maranguape e Rio Negro também participaram da competição.

Da terra ao campo

Paixão à primeira vista, o crescimento do futebol no subúrbio logo preocupou a elite cearense, que criou uma associação em 1920 para controlar os interesses na modalidade. O grupo então elaborou as divisões A, B e C, que separava os times de acordo com a cota paga à entidade.

A profissionalização começou no eixo Rio-São Paulo e se instaurou nas terras alencarinas em 1941, com a associação se transformando na Federação Cearense de Desportos. O Ferroviário foi o pioneiro ao atrair jogadores com um emprego na Rede Ferroviária – prática adotada posteriormente na região.

A lista de campeões cearenses tem ainda equipes como o América, Maguari, Calouros do Ar e Gentilândia, extintas no profissional e gravadas na história.

Salto para o futuro

Dando um salto temporal, 2019 desponta como chave do crescimento de um esporte exercido como “religião”.

O torcedor cearense nunca teve tantas opções para acompanhar no futebol nacional. A surpresa veio logo no Estadual, com a decisão do 2º turno entre Ceará e Fortaleza, com o recurso do árbitro de vídeo (VAR). O Clássico-Rei na elite brasileira será em 3 de agosto, após 26 anos de espera, impondo-se como Estado com mais nordestinos no Brasileirão – vale ressaltar o título inédito do Leão na Copa do Nordeste.

Na Série C, o Ferroviário faz campanha histórica e lidera a fase de grupos de ponta a ponta, com grandes chances de classificação. Enquanto Floresta, debutante, e Atlético/CE mantiveram grandes resultados na 4ª divisão, com o Verdão da Vila Manoel Sátiro vivo pela classificação.

Os resultados são um capítulo à parte do universo futebolístico. Sem pragmatismo, o futebol evoluiu e se misturou com a rotina das pessoas. Migrou do lazer marginal para a formação cultural.

Fonte: Diário do Nordeste