Até o início deste mês, 12.061 bebês vivos nasceram de forma prematura. Campanha alerta para a importância de um pré-natal adequado. Mães dos pequenos compartilham histórias de luta pela saúde dos filhos.
Chegar ao mundo antes do momento previsto foi a realidade de 12.061 nascimentos no Ceará, entre janeiro e o início de novembro deste ano, quando surgiram 101.012 novos cearenses. A média é de cerca de 15 mil bebês nesta condição, segundo dados da Secretaria da Saúde do Estado do Ceará (Sesa), com base nos últimos quatro anos. A chamada gestação pré-termo considera nascimentos com menos de 36 semanas e representa 11,9% de todos os bebês nascidos vivos no Estado. Nesses casos, é preciso reforçar os cuidados com a mulher e os filhos, como alerta a atual campanha do Novembro Roxo.

Natasha de Lima Dias, de 28 anos, conheceu essa realidade no dia 24 de julho de 2018, quando deu à luz e começou uma luta pela saúde do filho. Mãe de Felipe Gabriel, ela entrou em trabalho de parto com 23 semanas de gestação, dentro do período de cinco meses. O pequeno veio com 780 gramas. “Eu não sentia dor. Os médicos disseram que ele tinha de nascer porque eu não tinha mais líquido e estava correndo risco de vida. Tanto eu quanto ele. Foi quando eu comecei a colocar força e, numa terça-feira à noite, ele nasceu”, conta.

Foi devido ao encurtamento do útero e de uma infecção urinária que Natasha começou a ter uma sensação estranha no corpo. Isto a fez realizar alguns exames e então a saga começou. “Retornei ao hospital e fiquei internada. No outro dia, entrei em trabalho de parto depois de uma semana sentindo dor”, relata. A mulher enfrentou dificuldades para encontrar atendimento em hospital público, mas em seguida começou um tratamento para manter a gestação. “Elas diziam que, quanto mais tempo passasse na minha barriga, era melhor. Aí eu coloquei isso na minha cabeça”, diz sobre o procedimento.

Do nascimento do filho, ela lembra que foi necessário reanimar o menino e que, desde então, foram 10 meses de internação, período no qual o receio de perdê-lo era acentuado. “Não passei por tudo isso sozinha. Meu esposo, quando podia sair do trabalho, ia ao hospital e a médica foi muito maravilhosa. Foram eles que lutaram junto comigo pela vida do Felipe”, destaca Natasha, emocionada.

Após uma série de infecções e parada cardiorrespiratória, Felipe teve alta, e seus pais tiveram de entrar com processo judicial para realizar tratamento no Hospital Albert Sabin. “Estamos lutando para fazer uma traqueostomia (orifício feito com cirurgia para facilitar a entrada de ar), e ele ainda precisa da sonda. Um ano e três meses e continuamos indo fazer o acompanhamento no Albert Sabin”, conclui.

Desencadeadores

As principais razões para o parto prematuro estão nas infecções, comumente urinária, renal ou vulvovaginite, na gestação de gêmeos e no deslocamento da placenta. Também são desencadeadores para o quadro um episódio anterior de parto prematuro e a pré-eclâmpsia, complicação causada pela pressão arterial alta. “A gente tem de ficar de olho nas causas evitáveis com o pré-natal bem feito, acompanhamento das gestantes com pressão alta e, principalmente, das gestantes que têm infecções”, explica Ana Daniele Vitoriano, médica-chefe do Centro de Neonatologia do Hospital Geral Dr. César Cals.

Ela destaca que o pré-natal deve ser realizado com rigor, com, no mínimo, sete consultas médicas, e que alimentação e higiene são importantes para a saúde da gestante e da criança. “As mães de risco devem ter um acompanhamento laboratorial. A gente precisa cuidar da mãe e do bebê”, destaca sobre os casos em que são identificados os fatores de risco que levam ao nascimento precoce.

No Ceará, 15.464 bebês prematuros nasceram vivos no ano passado, 11,8% do total de 131.054, uma média parecida com a que foi registrada em anos anteriores, como indicam os registros da Sesa. Entre eles está Renan Timbó, que mobilizou a família para nascer durante a 27ª semana de gravidez da mãe. “Quando o bebê nasce a gente quer fazer uma festa, receber todo mundo no quarto e fazer lembrancinha. A gente não teve nada disso. Quando meu filho nasceu, a gente foi direto para a UTI (Unidade de Terapia Intensiva)”, lembra a arquiteta Shenna Timbó, de 33 anos.
Ajuda em rede

Há três anos, a arquiteta perdeu um filho. Desde então, passou a tentar uma nova gravidez. Neste ano, ela conseguiu, porém, na 20ª semana de gestação, descobriu que estava com o colo do útero curto e o tratamento para manter a gravidez era arriscado. “Eu fiz o procedimento e deu tudo certo, mas cinco semanas depois a minha bolsa rompeu e eu não estava em trabalho de parto. Fiquei internada, sendo acompanhada para segurar o bebê”, lembra.

Renan nasceu com 1 kg e 54 gramas, prematuro extremo, e precisou ficar 75 dias no hospital para ganhar peso. “Com o tempo, percebi que aquele vazio que eu sentia tinha com quem compartilhar, histórias parecidas. Você conhece o amor da sua vida e não pode pegar, assim que uma mãe nova chega, a gente a abraça”, relata Shenna. Para a arquiteta, essa rede entre mães, que se forma no hospital, contribui para superar as adversidades do tratamento.

Shenna diz que o menino tem tamanho menor que o convencional, mas que com o apoio de fisioterapeuta, fonoaudiólogo e outros especialistas, ele deve ter a saúde plena. “Ele tem uma idade cronológica, mas ele não tem sete meses precisamente. Eu preciso correr atrás do prejuízo para que, quando ele chegar à idade de caminhar, ele não tenha um atraso”.

Humanização

Métodos que aproximem mais estes bebês de suas mães podem ser fator-chave para uma melhora no quadro de saúde. Foi o caso de Ana Paula Damasceno Maciel, 30, mãe dos gêmeos prematuros Miriã e Miguel, nascidos no dia 30 de agosto de 2018, com 31 semanas de gestação. Ambos nasceram com problemas para respirar e precisaram usar tubos e aparelhos para o auxílio da entrada de ar.

Foram 11 dias intensos na UTI até eles apresentarem uma melhora substancial. Foi aí que a equipe de médicos do Hospital Dr. César Cals indicou uma terapia chamada Método Canguru, na qual, a partir de uma abordagem humanizada, é promovido o contato pele a pele (posição canguru) entre mãe/pai e os bebês. De acordo com o Ministério da Saúde, a ação promove estabilidade térmica, estimula a amamentação e o desenvolvimento. Foi o que aconteceu com Miriã e Miguel.

“O Miguel teve dificuldade de aprender a mamar e aí nós fomos para o canguru. Fiquei muito tempo com ele no canguru, ele precisou de mais tempo de desenvolvimento, e foi lá que eles aprenderam a mamar e conseguimos também tirá-los da sonda”, conta Ana Paula. Hoje, com 1 ano e 3 meses de idade, o casal está “muito bem”, na avaliação da mãe. Os pequenos não apresentaram mais problemas de saúde graves após o período inicial do pós-nascimento.

Ana Paula atribui muito dessa melhora ao Método Canguru. Segundo o Ministério da Saúde, entre os benefícios desta ação estão o menor tempo de internação do bebê e oxigenação adequada.

Via Diário do Nordeste