Descanso após anos de trabalho e uma segurança financeira que permita dias tranquilos. Eis o sonho de muitos brasileiros que enxergam na aposentadoria uma forma de garantir um futuro sossegado. Esse projeto compartilhado por muitos sofreu um abalo, quando foi apresentada a proposta de Reforma da Previdência na Câmara dos Deputados, no dia 20 de fevereiro deste ano. Se o plano do governo for aprovado como está, os trabalhadores terão que trabalhar mais e dedicar mais tempo de contribuição do que nas regras atuais.

Em meio às incertezas que rondam o assunto, a possibilidade de investir em um plano de previdência privada surge como uma alternativa que deve ser avaliada dentre os investimentos disponíveis para complementar a tradicional aposentadoria administrada pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

A previdência privada reúne fundos de investimentos em que o trabalhador pode depositar quantias que serão resgatadas no futuro, seja durante a aposentadoria ou para outra despesa relacionada a viagens ou capacitação, por exemplo. Esse tipo de investimento é ofertado por bancos e seguradoras e, mediante contrato, são estabelecidas datas de início e fim das aplicações.

De acordo com o economista e professor universitário Ricardo Coimbra, a previdência privada não é nem melhor nem pior do que outros investimentos disponíveis no mercado financeiro. “Eles são equivalentes, o perfil do investidor e os objetivos com o dinheiro investido é que farão diferença no fim das contas”, afirma.

A possibilidade de abrir uma carteira de investimentos com aplicações moderadas e arrojadas também deve ser avaliada. “Qualquer tipo de acúmulo de recursos é bom, mas, se você pode variar, é melhor ainda. Combinar previdência privada com outros de renda variável, como as ações, seria o ideal. Isso no Brasil ainda é muito pequeno, as pessoas estudam pouco, mas acredito que vai acabar sendo um caminho natural”, avalia.

Comparada ao modelo solidário controlado pelo INSS, a previdência privada apresenta benefícios como a possibilidade de portabilidade, caso outra instituição financeira apresente um plano com melhores condições ao investidor. Outro ponto que chama atenção é o fato de que é possível regular as aplicações de modo a determinar o quanto se deseja receber de pensão após o encerramento das contribuições mensais, algo que não ocorre no Regime Geral de Previdência Social (RGPS).

Renato Aguiar, economista e vice-presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Ceará (Ibef-CE), acredita que os benefícios decorrentes da adesão à previdência privada vão além do âmbito pessoal.

“Economicamente falando, a adesão aos planos de previdência privada é positiva, pois, a partir do momento em que os planos passarem a receber mais recursos, eles serão investidos na economia brasileira, ocasionando um evento multiplicador”, analisa.

Porém, antes de iniciar o modelo, são necessários alguns cuidados para garantir que o retorno desses investimentos aconteça da melhor forma possível para o cliente. De acordo com os especialistas, há algumas opções de fundos e taxas cobrados pelas instituições financeiras que podem variar bastante de banco para banco. Daí a importância de pesquisar bem antes de contratar o serviço.

Passo a passo da Previdência Privada
PGBL x VGBL

O primeiro passo é escolher o fundo de previdência, que pode ser um Plano Gerador de Benefício Livre (PGBL) ou o Vida Gerador de Benefício Livre (VGBL). Segundo Filipe Albuquerque, sócio-gestor da V8 Capital, o que deve gerenciar essa escolha deve ser o tipo de declaração de imposto de renda (IR) feita pelo investidor e o tempo que ele deseja manter o dinheiro investido. “O PGBL é um fundo que você pode deduzir da declaração completa do Imposto de Renda caso você contribua até 12% da sua renda anual para a previdência privada”, indica.

Porém, vale lembrar que esse imposto pode ser cobrado quando o investidor sacar o dinheiro do fundo. “Você vai pagar imposto a depender do valor que receber de pensão quando decidir resgatar o valor”, afirma Renato Aguiar, economista e vice-presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Ceará (Ibef – CE).

Já o VGBL, de acordo com Filipe Albuquerque, é indicado para quem faz o outro tipo de declaração ou tenha renda não tributada por ser baixa. “O VGBL é mais indicado para quem faz a declaração simples e não tem limite em relação ao ganho, investe o quanto quiser”, analisa. No VGBL, não é possível deduzir os investimentos do IR, sendo mais indicado, assim, para quem deseja aplicar na previdência privada a longo prazo, pois, ao final, o saque do investidor é acompanhado de pagamento de IR apenas sobre o os rendimentos.

TAXA DE ADMINISTRAÇÃO E TAXA DE CARREGAMENTO

Outro ponto que não pode passar desapercebido são as taxas de administração e carregamento. A primeira incide sobre o fundo. Segundo Renato Aguiar, a taxa de administração tem impacto direto na construção do capital. “O administrador retira pelo serviço de gerenciamento, geralmente é aplicada mensalmente”, afirma.

A taxa de carregamento, de acordo com ele, também “é uma taxa que será abatida dos depósitos feitos mensalmente”. O especialista indica que o investidor faça uma pesquisa em busca de um plano com taxa de carregamento pequena. Atualmente, há bancos em que essa taxa é de 0%. “Quanto menor a taxa, maior será a formação da aposentadoria”, analisa.

Mas é preciso estar alerta. De acordo com Aguiar, a ausência de uma taxa de carregamento não indica que o investidor deixará de pagar taxas adicionais. “Há planos que não cobram taxa de carregamento, mas cobram um desconto se você sacar antes de um determinado prazo”.

TABELA PROGRESSIVA X TABELA REGRESSIVA

Também é fundamental que o optante pela previdência privada escolha uma das tabelas de tributação: a progressiva ou a regressiva. Esta, de acordo com Albuquerque, é indicada para quem deseja investir a longo prazo. “Quanto maior o prazo de investimento, menor a tributação. Se você investir R$ 10 mil, a alíquota de imposto de renda será de 35%, mas, a cada dois anos, reduzirá em 5%. Vai caindo até chegar aos 10% após dez anos de investimento”.

Já a tabela progressiva funciona de acordo com a tabela vigente de imposto de renda, sendo mais indicada para os casos em que o contribuinte deseja resgatar o valor em curto ou médio prazo, ideal para planos como fazer uma viagem ou comprar uma casa. “A (tabela) progressiva se baseia no resgate do recurso que é retirado mensalmente, quanto maior for a retirada, maior será a alíquota”, explica Albuquerque.

TAXAS DE RENTABILIDADE E TÁBUA ATUARIAL

O investidor da previdência privada também não pode esquecer de pesquisar o histórico de rendimentos do fundo que será contratado. Segundo Renato Aguiar, essa investigação pode ser feita de forma gratuita e intuitiva. “Hoje, você entra na Internet e encontra sites que trazem um histórico de rentabilidade, sendo possível comparar diferentes fundos, inclusive em relação à poupança”.

Para finalizar, o especialista indica que o investidor conheça a tabela atuarial, que estipula qual será a data da morte de quem contrata o plano. A tabela leva em conta a taxa de longevidade da população e permanece sendo a mesma durante todo o processo. “A tábua atuarial vigente durante o contrato será utilizada para o pagamento da pensão no futuro”, explica.

Uma forma de garantir um futuro mais seguro
Gabriel, 4, e Matheus, 1, nem têm noção do valor do dinheiro no cotidiano, tampouco da importância de acumular reservas para emergências e planos futuros. Por sorte, os pais deles, Raquel, 37, e Edson Diniz, 38, entendem essa necessidade e já abriram planos de previdência privada para os dois. “A gente (ela e o marido) pretende ter uma vida longa, mas não sabemos como será no futuro, ainda mais com essas mudanças na aposentadoria”, avalia Raquel.

A ideia de investir na previdência privada veio a partir da experiência do irmão de Edson, que teve um plano aberto pelo padrasto que rendeu em torno de R$ 55 mil, quantia utilizada na formação superior e na abertura de uma empresa após a formatura. “Disse para mim mesmo: vou fazer igual com os meus filhos”, lembra.

Edson contou ao O POVO que o casal investe, por mês, R$ 125 na previdência privada de cada um dos filhos. O fundo escolhido foi o PGBL oferecido pelo Banco do Brasil. Edson afirma que não se arrepende. “Foi uma decisão certa, via débito automático, o valor é descontado mensalmente da minha conta. Eu nem sinto”.

Já a professora de ioga Isadora Lídia, 40, demorou um pouco mais para pensar na previdência privada como possibilidade de investimento. Ela já contribuiu com o INSS de forma autônoma, mas, há um ano, desistiu do regime público. “Busquei informações nos postos (de atendimento do INSS), mas não recebia nenhuma resposta segura. Não sentia que a minha aposentadoria estava garantida”, afirma.

Atualmente, ela investe no Tesouro Direto, programa implementado pelo Tesouro Nacional em parceria com a Bolsa de Valores. Mas a professora quer mais. Para isso, está escutando a opinião de especialistas e conversando com gerentes bancários. “Quero fazer previdência privada e continuar trabalhando, porque sei que a garantia que eu busco não vai vir do INSS”, avalia.

Ibovespa
O Ibovespa terminou na máxima do pregão, ontem, retomando o patamar dos 98 mil pontos, com os investidores otimistas em relação ao início da tramitação da proposta de reforma da Previdência na Câmara dos Deputados nos próximos dias.

Fonte: O Povo