O sol no sertão está de queimar a cabeça e derreter o solado do sapato. Nessa época do ano, os moradores reclamam da intensa onda de calor que atinge os centros urbanos que forma ‘ilha de calor’ e até nas áreas rurais. “Costumo passar o fim de semana no sítio, mas no domingo passado não suportei, estava demais”, disse a funcionária pública Marlene Sena, que tem uma casa ao lado do Rio Jaguaribe, na localidade de Quixoá, zona rural de Iguatu, na região Centro-Sul do Ceará.

Os institutos de análise de tempo e clima observam que nessa época do ano é esperado um aumento na temperatura no Semiárido Nordestino em decorrência da incidência dos raios solares – passagem do Sol para o Hemisfério Sul, onde em dezembro começa o verão geográfico.

“A gente não aguenta sair depois de 11 horas, é queimando tudo”, disse o aposentado, Francisco Marques. “À noite o Aracati (vento) está demorando muito a chegar e está fraco neste ano”. A comerciária, Márcia Pereira, também reclamou do calor. “A gente fica impaciente, dá uma moleza, tá demais”. A dona de casa, Maria Bezerra, disse que só sai para a rua se for de guarda-chuva. “Sem proteção, não tem quem aguente”, justificou.

Neste ano, entretanto, as temperaturas máximas e mínimas estão mais elevadas entre um e dois graus Celsius. O meteorologista da Funceme, Raul Fritz, atribui o fato ao ciclo de chuvas abaixo da média que atinge a região Centro-Sul Cearense, parte do Vale do Jaguaribe e do Sul do Estado (Cariri) desde 2012. “Creio que essas temperaturas ligeiramente acima dos dados históricos é consequência da longa estiagem, que se prolonga em grande parte do Ceará”, explicou. “Precisaríamos de um estudo científico, mais prolongado, para analisar melhor essa questão”.

O meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Flaviano Fernandes, também observou que quando há chuva a temperatura média tende a ser mais baixa. “A vegetação está seca, a umidade do ar, baixa, muito desmatamento e não há cobertura de nuvens no céu. Tudo isso favorece o aumento da temperatura, além da aproximação do verão”, disse.

Flaviano Fernandes observou há registro nos últimos dias de temperaturas máximas em torno de 40 graus Celsius e a mínima variando entre 22 e 24 graus Celsius. “Estão acima em torno de um grau para essa época do ano”, pontuou.

No Ceará, há 25 estações meteorológicas do Inmet e Funceme, que fazem registros de temperatura, velocidade do vento, insolação, umidade do ar. “Há de se observar que essas unidades estavam no passado em áreas fora da cidade, em meio à vegetação. “As cidades cresceram e as estações agora estão em espaços urbanos, em meio a edificações, com poucas árvores, próximo ao que podemos chamar de ‘ilhas de calor’, disse.

Outra observação de Fernandes é que em fevereiro/março o sol está ‘voltando’ para o hemisfério Norte, e há incidência mais perpendicular dos raios solares sobre o sertão nordestino, mas por causa das chuvas nesse período, a temperatura fica mais amena.

Fonte: Diário Centro Sul